Replico aqui, em carta aberta, o texto que enviei hoje à médica que assistiu a minha pequenina.

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Caríssima Dra.,

 

Há momentos que esperamos não viver. Sabemos que um dia os nossos filhos estarão doentes, queremos ter forças para os por bons num segundo, desejaremos passar para nós as suas dores e que tudo passe rápido.

Mas nem sempre as coisas são simples. E há momentos com uma dimensão tão grande, tão arrebatadores que parece que tomam conta de tudo e quase nos engolem como um tsunami. Foi assim que me senti na noite do segundo dia do segundo internamento da I., faz hoje, dia 9 de Maio, precisamente 2 anos.

É impressionante como as pessoas fazem diferença nesses momentos.

E a doutora fez TODA a diferença na vida da minha filha e na minha. Apesar da melhoria nas horas anteriores, de repente, ela estava a piorar. Mas a enfermeira desvalorizava, uma e outra vez. Mas eu SENTIA-O. Quando a doutora apareceu e eu ouvi novamente a enfermeira dizer “a bebé está é constipadinha” todas as forças e tudo o que é mãe em mim saiu. E, por um milésimo de segundo, preparei-me para um confronto. Mas, em vez disso, ouvi de si “Esta bebé não está nada bem e esta mãe também não está nada bem. A mãe conhece a filha melhor do que ninguém. Vamos fazer exames a tudo, está bem? ” E deu-me um abraço.

Não imagina o que isso significou, significa e provavelmente significará para o resto da minha vida.

Não foi só o ter reconhecido o estado da minha filha. Foi ter acreditado em mim, ter percebido. Foi o abraço que me deu, o carinho, a preocupação.

Se algum dia tiver um dia mais difícil, lembre-se que há uma I., linda, maravilhosa, inteligente e muito espevitada graças a si. Que há uma mãe de uma I. que nunca deixará de ser grata por a ter conhecido. Pode parecer-lhe pouco, pode até pensar que “é o seu trabalho” mas deixe-me dizer-lhe que não, não foi só o seu trabalho.

Sei que os profissionais de saúde, com o tempo e com a razão, distanciam-se das dores dos doentes e dos pais para conseguirem dar o seu melhor e até mesmo para se protegerem. Mas alguns distanciam-se de tal modo que a frieza ocupa muitas vezes o lugar da sensibilidade. O cuidado e o que se diz são, por vezes, quase tão importantes como o tratamento e no dia 9 de Maio foram cruciais.

Obrigada por tudo. E pela continuação do carinho demonstrado nas vezes que nos cruzámos nos corredores do internamento.
Envio uma pequena lembrança e fotos da minha I., agora com 2 anos, na expectativa de um dia poder re-apresentar-lha pessoalmente

 

Cumprimentos,

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P.S. Mais sobre esta história aqui